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[Prosa] Mais Nada

em Qui Dez 15, 2016 6:33 pm
Nota: Neste conto em particular tive a necessidade de dispor da ajuda de mais dois narradores. Cada um com uma tarefa especial. Temos um narrador-onisciente, um narrador-observador e o mais importante deles, o narrador-personagem. Os dois ajudantes são limitados, por isso tentarei ser fiel à visão de cada um, pois em alguns casos, um deles não poderá narrar.

Capítulo 1

“Certas coisas começam bem pequenas, imperceptíveis às vezes. Numa manhã ao sair de casa, pensei que havia fechado a porta e o portão de casa. Qual surpresa foi a minha ao chegar em casa e ver minha esposa irritada dizendo que deixei ambos abertos. Acreditei que fosse um caso isolado, corriqueiro, a pressa algumas vezes nos cega, pensava. Mas não foi um caso isolado. Tudo começou neste dia, foi exatamente neste dia que comecei a perder meu cérebro. Como operava num caixa bancário, não foi difícil começar a perder valores. Eu não sabia como, contudo ao final dos dias sempre havia um déficit. Em casa perdia a concentração facilmente. Do nada eu estava com uma colher na mão, sem saber para quê. Não tinha mais noção de quanto tempo estava no banheiro, tomando banho. Chegava atrasado ao trabalho ou acordava num domingo para ir trabalhar, mas neste dia não havia expediente. Ficou muito difícil seguir assim. Não sentia os lapsos. Então fui a um médico para que pudesse me avaliar e dar uma posição sobre o que estava de fato acontecendo.”

“Lá o Dr. Carlos, meu médico, informou-me que eu padecia do Mal de Larsvon. Uma doença rara que atua como um devorador de lembranças, memória e concentração. Degenera o instinto e os reflexos. Começa devagar, inicialmente retirando pequenas lembranças e atrapalhando a concentração. O doente nem sempre se lembra de como chegou a certo lugar. Perde a noção do tempo. E a pior notícia que podia ter me dado foi: não há cura.”

“Ou seja, meu cérebro seria comido por uma espécie de câncer neurológico e eu não poderia me defender disto. Só me restava esperar para virar um vegetal. Não havia chance de impedir a gradação deste mal, não havia nada que eu pudesse fazer. Só me restava esperar.”

“Eu era casado havia dois anos, não tinha filhos. Não queria que Millena sofresse me vendo perder a consciência. Amava-a, sempre foi e sempre será para mim a mulher mais linda do mundo. Eu não queria ser considerado frágil, débil, não queria ser um estorvo para ela. Ela era jovem ainda, não merecia o sofrimento que viria em breve com o tempo. Por isso decidi afastá-la. Inventei uma discussão qualquer, usei argumentos desconexos, ao final saí de casa batendo a porta. Sabia que ela decidiria ir para a casa da mãe. Falei que não a amava mais. Larguei o trabalho, pedi conta, recebi alguns trocados pelo contrato que tinha por uma previdência particular. Fugi de todos. Isolei-me num apartamento pequeno numa parte menos nobre da cidade. Aguardaria o tempo passar, aguardaria perder minhas lembranças. Só me restaria o silêncio e o esquecimento...”

“Não sabia ao certo quanto tempo ainda teria de juízo. Quanto tempo eu deveria esperar? Dr. Carlos não me deu um prazo de validade. Foi assim que ele chamou o tempo de vida que ainda teria: prazo de validade. Equiparado a um produto. Pareceu-me uma grande ironia. Após o vencimento do prazo seria lançado fora, como um imprestável. Vivi num profundo obscurantismo, tentava usar ao mínimo meu raciocínio, para quem sabe durar um pouco mais. Algum tempo depois cheguei a pensar: se eu não vou usar meu pensamento, para que vou viver então? Vou gastar o que tenho, adquirindo um pouco de cultura. Vou ler o máximo de livros que puder. Sabia que me perderia neles às vezes, que em alguns momentos eu estaria lendo de novo o mesmo trecho várias vezes. Não me importava se iria morrer, pelo menos seria com alguma cultura, algo que nunca tive de fato.”

“Comecei pequeno, lendo pockets, eu nem sabia o que eram pockets até um dia entrar numa livraria. Tratava-se de livros de bolso, mas com uma bela gama de textos importantes de grandes escritores. Comprei vários e quando meu dinheiro foi minguando descobri outro universo: a biblioteca pública do centro. Foi lá que tudo mudou de ângulo.”
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Eu observava aquele homem com seu sobretudo marrom todo surrado, barba grande, cabelo castanho embaraçado. Deveria ter seus trinta anos, todavia sua aparência me fazia julgá-lo ser de mais idade. Manquejava, apoiava todo o peso do seu corpo na perna esquerda. Carregava uns três livros. Sentava-se no canto mais afastado da biblioteca e parecia estar em transe quando abria as primeiras páginas do livro. Eu o chamava de Mendigo da Biblioteca.
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Capítulo 2

“Comecei a frequentar a biblioteca diariamente. Sentia um gélido arrepio na espinha quando chegava o horário de encerramento das atividades de lá. O que me acalentava era poder levar um livro por dia para casa, mediante a apresentação de algum documento. A pergunta que fica é: como eu poderia tentar me alimentar de coisas das quais me esqueceria em breve? Era como erguer um castelo para ser destruído. Mas eu queria construí-lo nem que fosse para admirá-lo por dois segundos. Com o tempo fui adquirindo algumas manias, como: fazer resenhas, anotar as qualidades e defeitos dos personagens, fazer desenhos das narrações mais vivas de guerras e acontecimentos históricos etc. Não me atinha à literatura, mas também à história geral, matemática, filosofia, biologia. Adorava ter informações. Era delas que me alimentava. Com os resumos eu sabia quais livros havia lido. As referências me ajudavam a lembrar do que havia esquecido. Estava treinando minha mente sem saber. Havia um caderno especial, com bordas prateadas e capa dura preta que comprei numa livraria, chamava-o de Livro Branco, porque era ali que tudo começava. Nele estavam os nomes dos livros lidos e sobre o que falavam, além do período que passei lendo. No começo um livro de em média 200 páginas levava duas semanas para ser lido. Dedicando cerca de duas horas para ele por dia. Esse tempo foi diminuindo à medida que colocava em prática as técnicas que fui aprendendo.”

“Não senti minhas memórias se dissipando. Além do que se elas estavam sumindo eu não poderia mesmo me lembrar delas. Com isso eu percebi que precisava escrever sobre mim, pelo menos o que me lembrava ainda. Fazer minha biografia. Para não me esquecer de quem eu havia sido.”

“Morava numa quitinete. As paredes pareciam um mapa de tantas coisas escritas nelas. Não havia como eu me perder ali. Entretanto meu maior medo era o de esquecer o caminho de casa ou o da biblioteca. Foi então que decidi que não poderia mais morar ali. Passei a dormir na própria biblioteca. Assim não precisaria mais sair, nem ser acometido pelo temor de quem sabe me perder. Havia uma sala de estudo, há muito desativada, ninguém aparecia lá para conferir se todos haviam saído. Era ali que eu morava agora: na casa dos sonhos.”

“Não dividia o que aprendia, estava tão avesso ao mundo, que me tornara anti-social. Eu repelia as pessoas. Era um modo que eu tinha de manter algum orgulho e amor-próprio. Não estava interessado em saber o nível do meu esquecimento. Sabia que as pessoas perceberiam meu problema e logo seria tratado como um lesado. Não queria isso. Eu preferia não saber meu nível de inteligência ou o antônimo dela.”

“Como eu disse antes, dei início à minha biografia. Pelo menos as partes cujo conhecimento de sua existência eu tinha convicção.”

“Meu nome é Fernando Pimentel. Nascido no dia 23 de abril de 1972. Eu sei disso porque ainda preservo meu documento de identificação. E se ele diz que nasci neste dia, é muito provável que esteja certo. Acredito que grande parte da minha memória já deva ter sido devorada, pois não me lembro da minha infância. Um rosto ou outro chamando algo que parecia ser meu apelido: Dinho. Minha mãe se chamava Gisele e meu pai Haroldo. Também graças aos meus documentos sei disso. A primeira coisa que escrevi para minha biografia, justamente tentando impedir meu esquecimento, foi como conheci Millena. Eu não poderia deixar essa lembrança ir embora tão fácil. Ela sempre fora meu tudo. O rosto dela me aparece como um pequeno borrão. Sei que tinha os cabelos castanhos até a altura dos ombros, olhos também castanhos, corpo mediano. O rascunho que tenho escrito sobre ela diz assim:

“Millena foi a pessoa mais adorável que já conheci neste mundo todo. O sorriso branco contrastava com o brilho dos seus olhos, não sabia qual eu mais admirava. Seus olhos eram castanhos e o cabelo da mesma cor à altura dos ombros. Pele morena e macia. Nunca vi mulher mais bela. Acredito que as qualidades físicas não sejam superlativas à personalidade que exibia. Inteligente, humilde, carinhosa, amorosa e outros muitos adjetivos que não escrevo aqui para que a imagem dela não fique um doce enjoativo. Mas sim, era uma mulher para a vida toda e se possível para além dela. Meu maior erro foi deixá-la, mas o fiz por amor. Não ansiava ver aqueles olhos brilhantes chorando por um corpo sem alma.””

“Tento lembrar seus olhos, mas não vejo nada. Já não há lume. Isso me dói tanto. Perder um tesouro destes é algo insuportável. Faz alguns dias que escrevi os parágrafos anteriores. Acreditava que poderia descrever como nos conhecemos, mas não foi possível. Não me lembro mais como a conheci.”

“Não entendo como funciona esse processo corruptível que acontece na minha mente. Como é que meus neurônios se desfazem? Como minhas memórias se perdem? Será aleatoriamente? Será de uma forma progressiva, começando das primeiras lembranças da minha vida?”

“Hoje percebi que não me recordava do gosto da maçã. Foi estranho, digamos, uma redescoberta agradável.”

“Minha mente parece um quebra-cabeças, cujas peças estão sendo retiradas por alguém que não eu. São peças que se escondem sem uma lógica aparente. Minha atividade cerebral está diminuindo o ritmo. Meus neurônios já estão se cansando desta batalha contra o inimigo. A guerra está tomando proporções preocupantes. Ultimamente tenho que ler o Livro Branco toda manhã, se não o fizer não saberei o que fazer. Ainda sou o Fernando, só não sei até quando...”

“Os livros me fazem companhia. Ontem conversei com Shakespeare e Descartes. Hoje terei um encontro com Asimov e Stevenson. À noite vou trocar poemas com Florbela Espanca.”

“Acredito que tenha perdido a noção do tempo, não sei há quanto tempo estou neste estado.”

“Minha cabeça às vezes dói tanto, parece que vai explodir.”

“Acho que eu gostava de alguém.”
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Ficava observando-o na tentativa vã de tirar alguma conclusão do seu comportamento. Não era normal ver mendigos lendo livros na biblioteca. Talvez fosse um rico excêntrico. Estou avaliando sua conduta de longe. Em breve falarei com ele. Algumas vezes parece absorto em demasia, como se sua mente não estivesse ali. Como se saísse do seu corpo.
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Capítulo 3

No dia seguinte Fernando acordou, não reconheceu o lugar onde estava. Percebeu um livro preto numa mesinha ao lado. Na capa dele estava assim: Para que eu não me esqueça de quem sou ou fui.

Abriu suas páginas. Leu os primeiros parágrafos.

"Você precisa ler este livro. O eu de hoje não é o mesmo de ontem. Você está perdendo a memória. Talvez não se lembre de que já escreveu isto. As palavras daqui são suas. São lembranças que você sabia ter ainda ontem. Talvez hoje não saiba quem é. Mas eu te digo, as últimas páginas são do que você se lembrou ou aprendeu ontem. Sua tarefa hoje é adquirir mais conhecimento e colocar nas páginas em branco qualquer coisa que recordar."

Na página consecutiva estava escrito: capítulo um. Com a seguinte narração: "Certas coisas começam bem pequenas, imperceptíveis às vezes. Numa manhã ao sair de casa, pensei que havia fechado a porta e o portão de casa. Qual surpresa foi a minha ao chegar em casa e ver minha esposa irritada dizendo que deixei ambos abertos. Acreditei que fosse um caso isolado, corriqueiro, a pressa algumas vezes nos cega, pensava. Mas não foi um caso isolado. Tudo começou neste dia, foi exatamente neste dia que comecei a perder meu cérebro.."

Não se lembrava de ter escrito aquilo.

Quem era Millena? Não se lembrava de ter sido casado.

O dia de hoje começou muito estranho, não tinha ciência de onde estava. Haviam folhas de papel por todos os lados, rabiscadas. Não reconheceu a caligrafia. Achou que estava sendo sequestrado. Correu em direção à porta, mas esta estava destrancada. O nervosismo tomava conta de si. Ao sair se deparou com algumas pessoas que passavam pelo corredor, carregando livros. Acalmou o passo, recompondo-se. Reconheceu os corredores e o centro da biblioteca. A memória recuperava algumas lembranças. Ele chorou. Estava ficando pior. Teve medo por um instante porque não sabia quem era. Suas lembranças voltavam devagar, mas até certo ponto. Era como um copo com água que se derramava, cuja água corria até certo lugar e parava. Conseguia se lembrar de fatos mais recentes, como o Livro Branco. Todavia as recordações que viveram mais fortemente arraigadas no hemisfério esquerdo do cérebro foram despedaçadas.

Fernando voltou à sala de estudo onde se escondia. Olhou morosamente de canto a canto o lugar. Nas paredes estavam suas lembranças em forma de palavras. O que deveria guardar na sua memória estava sendo escrito no papel. Passou a mão pelos escritos. Seus olhos marejavam. Voltou ao Livro Branco para saber o que fazer.


Capítulo 4

Quando um vento impetuoso atinge as altas nuvens, estas se desfazem como um castelo de cartas perante um sopro. Havia ainda um resquício de memória, que boiava na imensidão da sua mente, ou talvez somente o hábito comandando o seu corpo. Seguiu sua rotina, destacou de uma prateleira um livro grosso, cujo autor era um poeta português multifacetado. Encaminhou-se para uma mesa qualquer. O olhar longe, a mão direita a tremular e coxeava a perna esquerda. Caminhava com sofreguidão, como se a osteoporose tivesse atingido seu corpo. Mas não havia tal doença dentro de si. Era sua inteligência se acabando. O corpo andava trôpego. A respiração era a mais branda possível, a única canção que podia emitir. Compassada, ritmada. Agia como uma máquina que vai perdendo a corda. Ouvia-se silêncio em sua mente. Fernando já não conseguia fazer usufruto do juízo.

Soltou o livro grosso em cima da mesa. Sentou-se. Tentava folhear o livro. Parecia que sua mão pesava uma tonelada. Esforçava-se para erguê-la. Conseguiu abrir e virar a primeira página. As palavras assemelhavam-se a hieróglifos. Talvez nem fosse sua vontade mesmo fazer aquela leitura, mas a máquina, com o costume, treinada diariamente, fizera dele um escravo inconsciente. Ele não sabia por que estava fazendo aquilo, mas dava continuidade àquela ação. Tentava. Seus olhos falhavam. Em alguns momentos havia aquela neblina cobrindo o livro. Um astigmatismo interino. Sua retina se esbranquiçava. O processo da perda total da memória estava em ação. Seus sentidos se desfaziam numa reação em cadeia. Visão, audição, tato, tal qual instrumentos de uma orquestra que diminuem o sopro, a batida e o dedilhar da corda, para restar somente o movimentar das mãos do regente. Em poucos minutos Fernando não mais teria dor ou medo.

Erigia no seu punho a espada da resistência contra o esquecimento. Todavia tal inimigo apoderava-se de grande parte do campo de batalha, arrecadando muitos terrenos. Cirandava aquela pobre alma. Abraçava-o como um fantasma, reduzindo toda sua história a silêncio e escuridão. A percepção do mundo que ainda subsistia em Fernando chegava ao fim.

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Curiosamente hoje o Mendigo apresentava um comportamento totalmente não habitual. Seu olhar não ambicionava os campos frutíferos da literatura como sempre fazia. Não brilhavam, não reagiam, não piscavam. Ele estava mais longe do seu corpo do que todas as vezes em que o vi. Era como um invólucro vazio.
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Uma pequena explosão contida aconteceu dentro de si. Da escuridão surgiu uma luz que progredia. Ele a seguiu. Não percebia o que se passava ao redor. Ou onde estava. Era o seu universo particular, sua mente. Um céu azul perfeito, prédios, casas, árvores, pessoas, coisas. Era tudo o que ainda restava. O centro da sua vida.

Quando chegou perto o bastante daquela luz que seguia avistou uma grande tela. Sentou-se na frente dela. Na tela começou a rodar um filme. No filme havia um rio que corria e terminava numa queda. Suas águas eram límpidas, refletiam o brilho do sol. Amalgamados sua criatividade, consciência e memória. O filme era uma parte da cidade que ele não via, uma pequena reminiscência. Talvez a última que conseguira se salvar do devastador poderio bélico do esquecimento.

Havia uma mulher no filme. Será que a conhecia? Era uma jovem de pele morena, que sorria para ele. Fernando a admirava, sentia-se feliz. Aquele rosto parecia conhecido, sentia que já a havia visto algum dia. Os olhos de ambos eram vívidos, fazendo um contato sem palavras. Uma conversa profunda que se resumia numa troca de olhares.

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O Mendigo começou a tremer. Em alguns momentos parava. As convulsões eram comedidas. Ele permanecia na cadeira, sentado. Tive que tomar uma atitude quando percebi que havia sangue saindo do seu nariz. Acionei uma ambulância com meu celular e me dirigi apressadamente àquele homem.
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A mulher chegava próximo à tela. Fernando se aproximava também. Ambos compartilharam um beijo doce. Ela se afastou e o chamou para dentro da tela. Estendeu a mão macia para ele. Fernando não via o que ocorria ao redor, mas seu mundo se desfazia. Os montes fumegavam. A terra tremia. O rio se elevava como uma pessoa, fazendo as águas correrem para o céu. O mundo ao redor dele se tornava em trevas. Um gigante negro de um olho só emergia da terra. Chamava-se Esquecimento.
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Quando cheguei à mesa do Mendigo percebi que o livro estava já banhado em sangue, exceto uma pequena parcela. Do seu ouvido principiava a também vazar o líquido vital. Ele tremia descontroladamente, seus olhos reviravam. Eu tentava fazer alguma coisa, mas não sabia o quê.
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O chão se abria em fendas que expeliam labaredas de fogo. Caía em direção à terra uma gigantesca bola incandescente. O calor aumentava. Fernando olhou para trás e viu uma enorme sombra negra atrás dele, tentando alcançá-lo. O Esquecimento destruía tudo ao redor. Correu em direção a Fernando para estraçalhá-lo. Os pés do monstro caolho faziam o chão tremer e explodir ao fim do passo. A mulher atrás da tela estendeu a mão a Fernando, ela sorria um sorriso de paz. Ele esticou sua mão direita para ela. Pôde olhar para trás uma última vez, em seguida entrou na tela, que se desligou.
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A ambulância chegou breve. Tentaram reanimar o homem, porém este não tinha batimentos cardíacos e nenhuma atividade respiratória ou cerebral. Estava morto.

Algum tempo depois soube-se que ele habitava numa sala na própria biblioteca. Ele escrevia algo que parecia um diário, mas não havia coerência ou cronologia que fizesse compreendê-lo. Porém descobriram mais à frente um livro de capa preta e bordas prateadas. A partir dali tiveram conhecimento de quem era aquele homem, o que significavam aqueles escritos pregados nas paredes e porque estava ali.

Ele não era um mendigo como julguei, era um homem doente. Porém não me esqueço de uma coisa. Os versos onde o sangue daquele homem não chegou a vermelhar eram de Alberto Caeiro. Lembro-me claramente daqueles versos.


“É talvez o último dia da minha vida.
Saudei o sol, levantando a mão direita,
Mas não o saudei, dizendo-lhe adeus.
Fiz sinal de gostar de o ver ainda, mais nada.”

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Um lindo sol imponente surgia por detrás das vinhas. As nogueiras balançavam ao leve toque do vento matinal. O orvalho pendia morosamente pelas folhas verdes até alcançar o solo. Sentia toda a majestade da vida roçando-lhe feito um abraço amistoso. Aquele mesmo sol salpicava-lhe a face de um leve calor. Ele sorriu. Uma nova vida começava em algum lugar longe de tudo.
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