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Dill Bucaneira
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[Conto] Juna Empty [Conto] Juna

em Qui Dez 27, 2018 3:08 am
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[Conto] Juna India_10

Parte 1

Em meados de 1935 os brancos chegaram. Não que eles ainda não estivessem vindo para o Amazonas antes disso, mas Kaolin nunca tinha visto um antes… “Bela Jovem”, era isso que o nome dela significava, ela sempre fizera valer o nome que recebera, a tribo nunca vira tão bonita moça desde que o mais velho ancião podia lembrar. Seus cabelos eram realmente lisos e negros e seus olhos estavam sempre brilhando com curiosidade, o corpo bem feito ainda não tinha sucumbido aos poderes do tempo e ela andava exibindo seus seios como todas as outras mulheres da tribo, por isso não entendeu o olhar estranho que o homem branco lhe lançava do barco passando por ela no rio, ela não tinha como saber que as mulheres brancas usavam muitas roupas apesar do calor sufocante que enfrentavam por causa disso. Ela também estava surpresa, nunca tinha visto um homem branco antes, ele tinha muito pano sobre si, ela não sabia dizer se o cari era forte como um guerreiro ou se era fraco, seus olhos eram como o céu num dia claro e ela pensou que ele poderia bem ser o próprio Tupã, sorriu, se fosse o deus ali na sua frente, ela deveria temer sua ira, mas apenas estava curiosa, o olhar de vontade que ele lhe deu depois ela podia reconhecer, índios também o tinham, ele se aproximou manobrando o pequeno barco, e ela sorriu ainda mais pensando que talvez o deus Trovão gostasse dela, como seria ser a favorita de Tupã?

***
Ceci! - Juna correu até sua mãe e perguntou um pouco ofegante: - Porque não tenho um Ru?
Seu Ru é Tupã, cunhantã, você é filha do rio, filha do trovão… - a mulher riu com gosto como se contasse uma ótima piada. - Eu conheci seu pai enquanto me banhava no rio, os olhos dele eram como o próprio raio que brilha no céu e sua voz ressoava na língua dos deuses.
Mãe, se Tupã é a voz de Nhanderu e se foi ele quem nos criou, então por que não falaríamos a mesma língua que eles?
Eu que sei, Juna? - Não tenho nenhuma vontade de entender os deuses… - e soltou outra risada, achando graça da curiosidade da menina. - Para que precisa de um pai agora? Não bastam os adultos da aldeia?
Só estou curiosa. - disse a menina, dando de ombros. - Peri me disse que os caris estão vindo para essas bandas cada vez mais. Pensei que um deles poderia ser meu pai.
E que graça teria isso? Um pai branco… - como se a estória fosse mais importante que a realidade para ela, Kaolin olhou para a filha, sinceramente abismada. - Você não seria diferente dos outros.
Talvez eu não queira ser diferente.
Você não gosta de ser diferente? Quer ser como todo mundo?
Eu realmente não ligo, mas na verdade não tenho nada de extraordinário ou diferente, não ganho nenhum poder especial por você dizer aos outros que eu sou filha do Trovão.
Não perde nada também… Seu pai é quem eu digo que é. Não se preocupe, você sempre vai ser especial, pena não ter nascido com os olhos do seu pai, então poderia ter chamado você de filha do trovão… - com essa afirmação a mãe de Júna encerrou a conversa e voltou aos seus afazeres.
O nome de Júna queria dizer “Água Negra” e foi dado por sua mãe para se lembrar de onde ela fora gerada… Kaolin continuara quase tão bonita aos 40 quanto fora aos 20, ainda contava a todos, a história de como tinha conhecido Tupã na beira de um rio, apesar de Juna ter certeza de que não tinha sido o trovão quem visitara a mãe naquela tarde. Apesar de seus traços levemente diferentes seus cabelos e olhos eram tão negros quanto os da mãe, não destoando dos outros membros da tribo.
***
Júna! Hey filha de Tupã! - Peri se aproximou dela correndo e resfolegando. Como guerreiro da tribo, apesar de não ser muito alto, ele tinha resistência o suficiente para Júna entender que o rapaz estava correndo há algum tempo, seu sorriso zombeteiro lhe comprimentava enquanto usava o apelido sarcástico.
Diga Peri, Pé de Planta - Júna também sabia rir do nome dos outros.
Eu vi os brancos. Eles estão bem dentro da floresta dessa vez, não sei o que estão fazendo.
Pra que lado? - O sorriso de Júna morreu.
Perto dos uariçá.

Seu coração estava acelerado enquanto corria, ela parou abruptamente ao ouvir uma voz grave gritar algo rudemente como se estivesse xingando apesar de Júna não entender o idioma que os brancos usavam, ela esgueirou-se atrás de uma árvore para observar, por Tupã! Ela não podia imaginar o que eles estavam fazendo tão dentro da floresta já que não pareciam estar caçando, não tinham arcos e nem as armas barulhentas que carregavam as vezes… Ela sempre observava os brancos, os achava fascinantes mas suspeitava que a razão real era simplesmente que seu Ru devia ser um deles, talvez um dos mais velhos que ela tinha visto durante o último ano em que havia começado a espioná-los, não tinha a menor pista de qual deles poderia ser, sua mãe nunca lhe dera uma pista. Os cabelos da nuca de Júna se arrepiaram, uma sensação a tomou subitamente, algo como quando um grande predador resolve que você é a presa do dia.
Guaraci, guardião das matas e dos seres viventes, protege tua filha! - com essa prece nos lábios, a moça olhou em volta, tentando ver o que a observava, sem contudo entender de onde vinha o perigo.
Voltou para casa vigiando o entorno mas nunca soube o que a observava naquela tarde, mesmo assim nos dias seguintes não podia deixar de lado a sensação de ser caçada em todos os lugares, no rio, na mata e até em alguns lugares da aldeia, sentia-se como caça e isso significava que não havia sido um animal… Por mais perigosa que seja uma onça, ela não vai te seguir por dias antes de resolver te comer. Juna passou a andar com o arco todos os dias, mas isso não parecia servir muito para aliviar sua consciência.

Até que um dia a Fera chegou.

Ela estava correndo pela floresta, lembrando das histórias que sua mãe contava sobre os Nhanderu, o primeiro pai. Ela amava as histórias, amava mesmo sabendo o quanto os jovens riam da afirmação da sua mãe sobre ela ser filha do Trovão, Júna estava sozinha hoje também como havia estado na maioria dos dias, não que fosse rejeitada na tribo. O índio, (até onde sabia) não fazia essas divisões, não rejeitava crianças independente de quem era seu pai.
Ela gostava de estar sozinha algumas vezes, correr pela florestas, observar os homens brancos e os animais... Era como caçar… Exceto que hoje ela era a caça.
Júna sentiu o ódio primeiro, foi encurralada pelo pavor enquanto procurava em volta a causa de tamanho medo. Chegou a pensar que Abaçaí, o grande espírito de ódio a estava perseguindo, querendo possuí-la por ter se afastado dos seus irmãos. Então o viu… Um animal enorme, semelhante a um cachorro, só que mais feroz, não era como os lobo-guarás que moravam na floresta, era horrível e seus olhos eram maus como se todas as pessoas, bichos e coisas do mundo fossem seus inimigos, ele rosnou para ela e sua boca abriu em um sorriso nem humano, nem animal. Era na verdade muito menor que abaçaí, mas ainda assim pretendia possuí-la e fazer dela uma cria de seu ódio.
O lobisomem! - Juna disse a si mesma em um sussurro apavorado.
A coisa que tinha olhos malignos correu para ela. Enquanto Juna atirava sua flecha na direção do monstro, este pareceu não se importar nem um pouco com a arma que se cravara em seu ombro esquerdo, ele continuou arremetendo em sua direção, enquanto se transformava em algo que parecia humano, arrancou a flecha com um gesto despreocupado e um segundo depois estava sobre ela. Era um cari e seu cabelo era vermelho como a tinta do urucun, brilhante mesmo na sombra da mata fechada.
Aín! Ahhhhh! Sai de cima de mim Tapira imunda! - chutando suas partes baixas a moça correu e continuou, rápida e destra, graças ao fato de ter crescido na floresta
Ele, porém, não teve problemas em alcançá-la, segurou-a pelos ombros e virou-a de frente para ele, erguendo a índia com uma única mão em seu pescoço, as costas dela pressionaram contra uma árvore e as farpas se cravaram em sua pele enquanto ele a arrastava para cima e de volta um pouco para baixo.
“Vou morrer hoje. Essa coisa que não pertence aqui vai me matar ou me tornar um lobisomem como ele, então vou ter que correr para sempre…” - os pensamentos que duraram apenas alguns minutos pareceram se estender por horas com seu cérebro embaçado por causa da falta de oxigênio.
A coisa sorriu, trazendo Júna de volta com pavor. O sorriso não era de alegria, mostrava apenas uma insanidade bestial.
“Ele é como os animais que tirei dos acampamentos dos homens brancos que batiam neles, louco e mau” - a tortura a fazia oscilar dentro e fora de sua mente com pensamentos aleatórios.
O monstro lambeu Juna no umbigo passando o vale entre seus seios e até a curva entre seu pescoço e ombro, bem abaixo de onde estava a mão que lhe asfixiava e a mordeu. A moça esqueceu a sensação de sujeira e errado que aquela boca tinha deixado em sua pele, quando sentiu a dor. Teria gritado, mas ele tinha cortado sua voz junto com quase todo o oxigênio.
Ouviu pela primeira vez a voz do mau em uma risada rouca, gutural em seguida nas palavras:
Assim é bom pequena presa… Segurando você assim, o sangue fica preso bem aqui. - e lambeu as marcas que seus dentes acabaram de abrir - E seu medo deixa o gosto ainda melhor… É uma pequena guerreira, por isso vou te dar um presente…
Depois se perdeu em dor e insanidade, perdeu a noção do tempo mas sabia que sua mente esteve embaralhada por dias, sentindo o ódio que queimava dentro dela, a fome que a fizera matar um suassu e drenar todo o sangue dele e depois outro e outro, e então um pobre cari que parecia estar curioso sobre o suassu morto, Juna chorou por dias a morte do humano e agradeceu apropriadamente o sacrifício dos animais, ela sabia que havia algo errado com ela, durante o dia ela acabava querendo se esconder em qualquer caverna escura e dormir como morta durante todo o dia, ainda vagava pela floresta, naturalmente escura por causa da vegetação fechada, mas nunca conseguia se manter acordada por muito tempo quando o sol nascia.

Um dia ela encontrou um îagûara e seu instinto a fez querer lutar, determinar o maior predador, algo que provavelmente tinha mais relação com sua própria natureza que sempre a levava a fugir ou atacar do que com qualquer coisa que o mal tivesse feito a ela, naquele momento sabia que não conseguiria fugir, tinha uma coisa diferente no cheiro dessa onça e que ela pudesse notar isso era muito estranho, é claro que o lobisomem a tinha mordido deveria ter dado a ela esse poder, provavelmente viraria um lobo na próxima lua cheia, a onça rugiu e seus pelos se arrepiaram, ela olhou dentro dos seus olhos e tentou mostrar que era inofensiva e não ia atacá-lo, o macho piscou os olhos com surpresa, uma reação estranhamente humana e deu um sorriso peculiar mostrando as presas, o que não consolou muito Juna, apesar de ele parecer realmente divertido com a atitude dela, ela sorriu de volta, esperando que ele não a atacasse, mas ele simplesmente começou a mudar como o fizera a besta que a mordeu um tempo atrás, ele era um belo homem branco, seus cabelos eram negros como a noite e seus olhos verdes como se tivesse a mata dentro de si. Talvez tivesse, pensou Juna. Ele riu outra vez agora em seu corpo humano e a olhou como se ela tivesse contado uma grande piada, apesar de ela não ter dito uma só palavra.
Você é como eu. - disse Juna - amaldiçoado…
Não sou. Levo a benção de Guaraci, sou Jaguará Amanajé, mensageiro de Nande Ru Papa Tenondé e protetor da floresta.
Sou um lobisomem, fui mordida e contaminada pelo mal.
Não é. O mal a contaminou mas não é um lobisomem. Sei o que era. Anhanguera, diabo velho, bebe sangue e corre pela noite, mas Yaci, assim como Guaraci, gosta de você e você pode usar a maldição para redimir seu povo. Salvar as vidas, falar com os animais e ajudar, Yaci vai ajudar, mandar uma guia. Espere e aprenda. Um dia pode abraçar o espírito da besta tão bem que a mata vai lhe chamar de filha e você poderá ser como eu, uma protetora.
Você parece Cari demais para ser Amanajé de Namandu. - disse Juna com os olhos estreitos de desconfiança, o macho respondeu com outra risada.
Sou índio. Meu Ru era jaguará, um dia ajudou uma pobre moça cari que estava se afogando no rio, sendo trazida pela água desde o acampamento dos brancos, ele gostou da coragem dela e a tomou para si apesar de no início não falarem a mesma língua. Recebi a benção dos deuses ainda assim. Ru me chamou Amanajé - Mensageiro, para que eu levasse o aviso dos deuses de proteger a floresta. Mutter como minha Ceci gostava que eu a chamasse me deu o nome de Kléber, que foi o melhor correspondente que ela achou para o nome que meu Ru me deu. - ele deu uma risada alta - na verdade o nome significa “aquele que cola cartazes”, o que é bastante ridículo.
O que é um cartazes? Você sempre fala tanto?
Sim eu falo, cartazes são mensagens que os brancos deixam um para o outro grudados nas aldeias. Venha pequena cunhã, vou ajudá-la a se adaptar.
Juna ficou muitas luas em companhia de Amanajé mas sempre soube que um dia teria que deixá-lo, e algo dizia que a besta a seguiria depois disso.




Glossário
Angûera Apeîara: espírito guia
Amyipagûana: antepassado
Suassu: grande animal de caça, veado
Cari: homem branco
Îagûara: onça
nande ru papa tenondé: o primeiro pai, Deus
Namandu ou Nhanderu: o primeiro pai, imanifesto, vazio, criador
Ru: pai
Mutter: mãe em alemão
Ceci: mãe em Tupi
Uariçá - Seringueira
Tapira - Anta (idiota, etc)
Aín - Merda

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[Conto] Juna Empty Re: [Conto] Juna

em Sab Mar 16, 2019 5:12 am
Qui lindo Smile

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